23 de ago de 2012

MOKOOMBA (Zimbabwe) - Especial, lançamento do disco Rising Tide Rádio África, 23/08/2012 - quinta 21h

O Rádio África dessa semana traz um programa especial lançando em primeira mão no Brasil o disco Rising Tide, da Banda Mokoomba, do Zimbabwe. A banda tem tido as melhores críticas e tocado em todos festivais da Europa, Estados Unidos e Canadá, e vem se revelando como um dos destaques da nova geração da música africana. Produzido pela baixista, cantora e compositora Manu Gallo (Costa do Marfim) o disco traz uma incrível mistura de ritmos e melodias, passando pelo zouk, rumba, mandingue, reggae e flertando com sonoridades de outros países como o Congo, Mali e Senegal. Os vocais poderosos de Mathias Muzaza traz o peso e a profundidade dos grandes Griots do oeste da África, e a banda pulsa de maneira supermoderna, mas sem deixar de lado suas raízes do Zimbabwe. Nesse programa você poderá ouvir o disco na íntegra, e conhecer o som desse incível banda que vem chamando a atenção por onde passa.

20 de dez de 2011

Cesária Évora (1941-2011)


Cesária Évora Morreu a senhora música do mundo

PUBLICO
18.12.2011
VÍTOR BELANCIANO

Todos a queriam para si. Os portugueses diziam que estava para Cabo Verde como Amália para Portugal. Os franceses que estava para Cabo Verde como Edith Piaf para França. Para os naturais de Cabo Verde era a própria ilha. Era a sua voz. Ela era do Mindelo, onde nasceu e onde regressava sempre, mas desde a alvorada dos anos 90 transformou-se numa voz universal, cantando Cabo Verde para o mundo. Essa voz de todos, maior do que a vida, que apenas não conseguiu espantar a morte, calou-se ontem, aos 70 anos, no Hospital Baptista de Sousa, em São Vicente, por "insuficiência cardio-respiratória e tensão cardíaca elevada."

Não foi uma surpresa, se é que se pode dizer isso da morte. A 24 de Setembro do ano passado a cantora tinha dito que iria terminar a carreira a conselho médico e nesse mesmo dia foi internada depois de mais um acidente vascular cerebral. Ontem, aos 70 anos, completados em 27 de Agosto último, aconteceu mesmo, deixando uma carreira feita de inúmeras digressões e actuações na TV, 24 álbuns (Miss Perfumado, Mar Azul, Café Atlântico ou Nha Sentimento), um DVD e muitas colaborações registadas em disco. Era sem dúvida a cantora de maior reconhecimento internacional da história da música popular cabo-verdiana.

Isso mesmo foi aludido, ontem, pelo Presidente da República Cavaco Silva, que considerou a cantora um "símbolo eloquente da música e da alma de Cabo Verde." Na mesma linha, o empresário da cantora, José da Silva, em comunicado, lembrou o "legado artístico e humano" da artista que tinha "um encanto subtil na voz." Já o secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Domingos Simões Pereira, da Guiné-Bissau, lembrou que "muita gente passou a conhecer os países africanos de língua portuguesa pela Cesária. Quantas vezes todos reclamaram ser do país da Cesária?"

Billie Holiday da morna

Desde que se tornou numa figura de êxito internacional, a partir de 1992, que as preocupações com a sua saúde eram sempre referenciadas (problemas cardíacos e respiratórios, ou colesterol). Em 1996, neste jornal, Luís Maio, enviado especial a São Vicente, dizia que havia optado por deixar de lado a garrafa de whisky e o cigarro que a haviam ajudado, no início da carreira, a moldar uma imagem de "Billie Holiday da morna". Nas entrevistas, sempre que lhe falavam da sua saúde, brincava, dizendo que há muitos anos que não bebia ou fumava. Pode ser verdade, mas não chegou para a afastar dos caminhos da morte.

A sua voz, sim, espantava. Deixava boquiabertos os que foram tomando contacto com ela ao longo dos anos, ao mesmo tempo que parecia atenuar ou, no limite, afastar, os males da alma. Quem a viu ao vivo sabe-o: face sofrida mas digna, corpo balançando-se vagarosamente apoiado nos pés sempre descalços e aquela voz límpida e calorosa. Os franceses, que a adoptaram em primeiro lugar, chamaram-lhe "a diva dos pés descalços" e o epíteto ficou.

E depois existia ainda a música, mornas essencialmente, mas também coladeras, parecendo declives de tristeza, um tipo de ondulação doce, envolvendo canções sobre a vida, o desespero, a esperança e a transcendência, o indizível, aquilo que apenas a música parece conseguir traduzir tantas vezes, em canções como sôdade, Sangue de beirona, Fada, Carnaval de São Vicente, Luiza, Flor di nhã esperança, Miss perfumado, Mar azul, Vida tem um so vida ou Dor di amor.

A música sempre esteve nela. O pai, Justiniano da Cruz, tocava cavaquinho, violão e violino, o irmão Lela, saxofone, e entre os amigos contava-se o mais emblemático compositor cabo-verdiano, B. Leza, que viu morrer cedo, mas cujas composições cantou até ao fim da vida. Desde cedo que Cize, como era tratada pelos amigos, se lembrava de cantar, ao ar livre, nas praças da cidade do Mindelo "para afastar coisas tristes." Aos 16 fazia-o nos bares e hotéis da cidade, começando a angariar alguns admiradores que a tratavam como a "rainha da morna." Com a independência de Cabo Verde, em 1975, deixa de cantar durante dez anos, um período muito negro, que a levaram ao alcoolismo.

Em 1985, a convite do cantor Bana, proprietário de um restaurante e de uma discoteca, acaba por ser deslocar a Lisboa, gravando um disco que passou despercebido. Seguiu-se Paris, impulsionada pelo empresário francês José da Silva, que a acompanhou sempre, e foi aí que acabou por ver reconhecido o seu trabalho numa fase inicial. Em 1988 grava La diva aux pied nus, sendo aclamada em 1992 com o álbum Miss Perfumado.

Cantar não tem idade

Aos 47 anos, finalmente, transformava-se numa primeira figura do circuito das "músicas do mundo", actuando nos mais relevantes palcos do globo, concretizando desde então parcerias com outros cantores (de Caetano Veloso a Marisa Monte, ou de Compay Segundo a Salif Keita) e fixando-se, na maior parte do tempo, em Paris. Em Portugal, o grande público, só começou a dar-lhe a devida atenção na segunda metade dos anos 90 e em 1999 recebe a Grã-Cruz da ordem do Infante D. Henrique. Depois do seu sucesso, vagas de músicos de Cabo Verde (Lura, Nancy Vieira, Baú, Tcheka) repetiram os seus passos, alternando entre Paris, Lisboa e a ilha, dessa forma exportando a sua música.

Em 2004 acabou por receber um Grammy para melhor álbum de world music contemporânea pelo disco Voz d" Amor, continuando insistentemente com as digressões por todo o mundo, apesar dos vários problemas de saúde. Não gostava muito de dar entrevistas. Dizia que eram repetitivas. Era lacónica. Falava como cantava, em crioulo. "Ninguém entende crioulo", dizia das audiências que a ouviam, "mas não importa, a música diz tudo, entendem a música." Quando a interrogavam sobre a idade respondia que Sinatra havia cantado até aos 80 e o cubano Compay Segundo até aos 90. "Cantar não tem idade". A sua imagem de marca passava pelo cigarro na mão, enquanto bebia grogue. Os que com ela privaram reconheciam-lhe a capacidade de brincar e uma grande autenticidade na forma como vivia.

Nos últimos anos não lhe faltaram críticos também, que argumentavam que se estava a repetir sem necessidade. Em França, é que o aplauso não abrandou. Em 2009 o Presidente francês Nicolas Sarkozy entrega-lhe a medalha da Legião de Honra, depois de uma intervenção cirúrgica que a levou a temer pela vida. Apesar do seu estado debilitado, afirmou numa entrevista que preparava um novo disco para ser lançado no próximo ano. Já não acontecerá, mas da senhora música do mundo ficarão muitas outras canções para superar a sôdade.


Cize, no mar azul dos céus
NUNO PACHECO

Há um exercício inútil, a que alguns já se entregaram, sem êxito: encontrar "substituto" para Cesária Évora. Ela nunca se incomodou com isso, talvez porque soubesse que era tarefa impossível. O mistério que sempre envolveu a sua voz de um timbre inigualável, a calma profunda e melancólica que emanava das suas canções, fossem elas mornas ou coladeras (género, mais ritmado, a que dedicou o seu último disco, Nha Sentimento), não tem nem terá paralelo noutras cantoras cabo-verdianas, mesmo nas melhores. Tal como Amália não teve nem terá paralelo noutras fadistas, e tantas há e houve, algumas geniais, também Cesária foi estrela de exemplar único no belo firmamento da música cabo-verdiana e também no da música universal.

Musicalmente cresceu tarde, de Paris para o mundo, porque o mundo não lhe abriu outras portas antes nem noutros lugares. Teve a ajuda de José da Silva, que percebeu o que nela havia de melhor, mas o resto só podia ter sido dela: a voz, a alma, o gesto, a cabo-verdianidade. Ouvi-la, fosse em que palcos cantasse (e cantou em tantos, de modo incansável), era ouvir e ver Cabo Verde. Dificilmente haverá disco tão belo quanto Mar Azul e dificilmente cada nova audição das suas escassas oito faixas deixará cada ouvinte imune à emoção. É certo que, em matéria de discos, a sua carreira teve altos (alguns altíssimos) e baixos, mas raramente cedeu à vulgaridade de se deixar desfigurar por modas a que era alheia, mesmo nos duetos com celebridades (de onde aliás se saiu bem), usando-os como tributo à sua arte.

Sempre cantou (e falou) em crioulo cabo-verdiano, deixando a tarefa de entender o que dizia a tradutores ou interlocutores mais sagazes. Sempre se divertiu nas entrevistas, mesmo quando parecia entediada, sempre falou pouco porque preferia cantar muito, sempre tendeu a desarmar quem queria fazer-lhe perguntas difíceis. O tabaco e o álcool foram durante muito tempo seus companheiros nessas conversas, até que, depois do AVC que a obrigou a parar em 2008, a travaram.

No início deste mês de Dezembro era já uma certeza: Cesária Évora não voltaria aos palcos. Recomendavam-lhe repouso, muito repouso. Na sua casa, no Mindelo, Cesária talvez já não esperasse nada. Mas em 2009, na última entrevista que deu ao PÚBLICO, dizia com um largo sorriso, ainda sem largar o cigarro: "Eu já não estou mais doente". Ao acidente vascular cerebral chamava-lhe apenas uma "picada no braço". Nessa altura ainda a esperavam vários palcos: o emblemático Le Grand Rex de Paris, Suíça, Luxemburgo, Israel, Polónia, Lituânia. Mas já tinha em mente parar de vez. "Canto mais um tempo e depois stop!" Para lá disso, apenas um sonho: "Fazer uma casa no campo. E morrer lá". Isso no Mindelo, onde nasceu e acabou por morrer, mas num hospital, aos 70 anos. Cize, era esse o seu "nominho", ficará agora a cantar na nossa memória e no mar azul dos céus.

Reacções

Flávio Hamilton, actor
Para mim a Cesária sempre foi o mundo. Cresci numa família de músicos, e ela sempre foi uma grande referência, a Cesária e a minha avó tinham uma relação de grande amizade. Cresci com a ideia que a Cesária era quase a perfeição ao nível musical. Mas eu adorava ir vê-la quando ela ia cantar a qualquer sítio por causa da sua pessoa, da sua maneira brincalhona. Era isso que eu adorava antes de saber o que a música dela representava. Para mim é uma referência humana, absolutamente forte e inspiradora e que eu não quero nunca esquecer

Lura, cantora
Estou completamente desolada, todos estávamos com muitas esperanças, a Cesária sempre foi uma força da natureza, sempre acreditávamos que ela agora ia ter tempo para descansar e se recuperar. É muito triste para Cabo verde, que perdeu muito, culturalmente e não só. A Cesária foi a mulher que levou Cabo verde ao mundo, ao universo,. Ela é a nossa referência, por causa do amor que dedicou à carreira, à música, à cultura e à história de Cabo Verde, com uma entrega notável. Admiro-a muito, em todos os aspectos.

Tito Paris, músico
Cabo verde fica mais pobre, da mesma forma que ficou mais rica quando ela nasceu, porque nasceu uma estrela que não se apagará, ficará acesa, a brilhar através da sua música. Espero que todos os cabo-verdianos, sobretudo os mais jovens, dêem valor ao que ela nos deu. A Cesária levou-nos de uma parte do mundo para a outra, levou o nome de Cabo verde por todo o mundo e quando ela estava em palco todo o cabo-verdiano estava lá com ela. Ela levou a morna, e o sorriso, e o calor do Mindelo. Todo o mundo da música ficou mais pobre, mas um artista nunca morre.

José Eduardo Agualusa, escritor
O extraordinário sucesso da Cesária mudou a forma como a música cabo-verdiana passou a ser acolhida no mundo e, dessa forma, a própria música cabo-verdiana. Mas mais do que isso, julgo que ela foi muito importante para todo o mundo da música em português, porque abriu caminhos para todas as outras culturas. O que foi extraordinário nela foi ter sido capaz de dar voz a todo esse património. Lembro-me de a ter entrevistado para o PÚBLICO antes do sucesso em França. E ela já era todo aquele património extraordinário de Cabo Verde.

João Branco, director do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo
A primeira vez que chorei em Cabo Verde, há quase 20 anos, foi por ter ouvido a voz de Cesária. Estava sentado num bar, distraído, quando aquele espaço foi invadido por uma voz única, grave, possante. O disco era o Miss Perfumado. [...] Depois do choque inicial, a voz de Cesária ecoa por toda a cidade do Mindelo. Nas ruas, nos cafés, nos bares, nos carros, nas vozes. Um mendigo grita no centro histórico: "Cesária já morrê!" Cabo Verde, é uma Nação que se curva, de pés descalços, perante a sua maior Diva.

16 de jun de 2011

Especial Afrobeat com Letieres


Radio Africa especial com maestro Letieres Leite da Orkestra Rumpilezz conversando sobre o disco: Afrobaby - The Evolution of the Afro-Sound in Nigeria 1970-79 (baixe o disco aqui).

Sábado, dia 18, 19h na Educadora FM 107.5 - vocẽ também pode ouvir o programa via internet no site: www.educadora.ba.gov.br

18 de fev de 2011

Especial Egito e Líbia

Nesse sábado vamos ter um programa especial em homenagem ao Egito e a Líbia.

O programa pode ser ouvido ao vivo via rede no site do irdeb. (19h em Salvador e 20h no sudeste)

Leia aqui mais informações sobre a onda de revoltas no norte da África.

Para entrar no clima veja o clip do músico egípicio Amir Eid gravado na praça Tahrir em pleno
protesto.





11 de fev de 2011

#25jan


Americanos lançam rap sobre a rebelião egípcia no YouTube
PAULA DAIBERT
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM DOHA (QATAR)

"Ouvi eles dizerem que a revolução não será televisionada; a Al Jazeera provou que estavam errados; o Twitter os deixou paralisados." São esses os primeiros versos, em inglês, de "#Jan25", rap criado por um grupo de artistas americanos e canadenses de origem árabe, inspirado nos protestos que ocorrem no Egito há mais de duas semanas.
O título faz referência ao símbolo "hashtag", que caracteriza os tuítes, e à data em que se iniciaram as gigantescas manifestações que pedem a queda do ditador egípcio, Hosni Mubarak.
Produzida pelo palestino-americano Sami Matar, a música é uma parceria entre os rappers Omar Offendum, The Narcicyst, Amir Sulaiman, Ayah e Freeway.
Colocado no ar na última segunda-feira, o videoclipe de "#Jan25" já havia ultrapassado 45 mil visualizações no YouTube desde o seu lançamento até o fechamento desta edição.
Com 5 minutos e 48 segundos de duração, o vídeo é uma compilação de várias cenas de confronto entre os manifestantes e a polícia em lugares como a praça Tahrir, epicentro das manifestações pela derrubada da ditadura.
Os artistas só aparecem em montagem fotográfica no início e no final do vídeo, que também aproveita a narração da rede árabe Al Jazeera.
"A revolução não será televisionada" é citação do título da canção mais conhecida de Gil Scott-Heron, músico e escritor americano considerado precursor do rap, lançada em 1970 como uma crítica à mídia "mainstream".
Segundo Offendum, apesar do uso maciço das redes sociais Twitter e Facebook na organização e disseminação de mensagens de apoio aos protestos, o que está ocorrendo no Egito no momento é uma revolução popular real.
"Essa não é uma revolução do Twitter. Foi preciso que muitas pessoas se unissem e se comunicassem para que ela acontecesse", afirmou o rapper sírio-americano durante entrevista à Folha em Doha, no Qatar.
Entretanto, ele não deixa de mencionar que o bloqueio do Twitter no Egito nos primeiros dias de protestos é um sinal de que "os responsáveis pela atual situação no país se dão conta da ameaça que as redes sociais podem representar para eles".
O artista ressalta ainda a importância da transmissão dos protestos pela televisão, sobretudo a Al Jazeera, baseada em Doha, que, segundo ele, preenche um vazio.

Folha de São Paulo, quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

7 de fev de 2011

Uma invasão de indie rock vindo da África


Jimi Hendrix é mixado com música nativa
Por LARRY ROHTER (The New York Times)

Para onde quer que você olhe, hoje em dia, parece que o mundo do indie rock está explorando sons vindos da África, a origem ancestral de gêneros americanos como o jazz e o blues.
Em termos de geografia, os grupos africanos que estão começando a ser ouvidos nos EUA incluem alguns de países como África do Sul, Serra Leoa, Quênia e Ruanda. Mas o ponto focal do interesse das gravadoras é claramente o Mali.
País da África ocidental subsaariana, sem saída para o mar e com apenas 14,5 milhões de habitantes -menos de um décimo da população da Nigéria-, o Mali ganhou fama de potência musical.
O etnomusicólogo Jon Kertzer, que comanda o selo Next Ambiance da gravadora indie Sub Pop, chegou a escrever um artigo intitulado "Good Golly, Why Mali?".
Uma resposta talvez seja o longo histórico do país como encruzilhada de povos nômades, fato que resultou em um misto incomum de culturas e estilos musicais: bambaras, sonrais, mandingas, árabes e tuaregues, entre outros. Também ajuda o fato de a música malinesa ser baseada numa tradição forte de instrumentos de corda, caso do corá, semelhante a uma harpa, e do ngoni, visto como antepassado do banjo; ambos soam familiares aos ouvidos ocidentais acostumados ao violão.
"É lógico que o ponto de entrada seja um instrumento que você consegue reconhecer", disse Bettina Richards, fundadora da Thrill Jockey, cujos artistas africanos incluem o quarteto elétrico baseado em rock Extra Golden, composto de dois americanos e dois quenianos.
Selos como o Nonesuch começaram a lançar compilações de música africana já nos anos 1960. Mas os executivos de selos indie, blogueiros e fãs da música africana, muitas vezes, consideram que o pequeno boom atual começou em 1997, quando o selo francês Buda Musique começou a relançar a chamada série Ethiopique, que hoje consiste em mais de 20 CDs de música da Etiópia e Eritreia.
"A Ethiopique foi importantíssima, influente; pode-se dizer que tenha sido transformadora", disse Jonathan Poneman, um dos fundadores da Sub Pop.
No início da década passada, a banda malinesa Tinariwen surgiu literalmente do deserto, chamando a atenção quando começou suas apresentações em festivais como o Womad, de Peter Gabriel, no Reino Unido.
Membros dos povos nômades do Saara, os integrantes da banda tinham percorrido o Mali, a Argélia e a Líbia, absorvendo não apenas a influência da música árabe e berbere, mas também Jimi Hendrix e Led Zeppelin, criando um estilo potente, movido por guitarras e divulgado como sendo "blues do deserto".
A curiosidade sobre a música africana pode ser suscitada também pela popularidade recente de bandas americanas como Dirty Projectors e, especialmente, Vampire Weekend, ambas as quais começaram como projetos de alunos de grandes universidades americanas que aderiram à música africana, incorporando alguns de seus ritmos e vozes. No Reino Unido, um processo semelhante começou antes: Damon Albarn lançou o álbum Mali Music há quase dez anos.
Assim como Bob Marley virou símbolo da autenticidade terceiro-mundista quando apareceu no cenário pop, nos anos 1970, artistas da onda africana parecem estar ganhando credibilidade e legitimidade graças a experiências de vida duras.
Tanto a Tinariwen quanto a Sierra Leone Refugee All-Stars emergiram do exílio e de campos de refugiados; a The Good Ones é formada por sobreviventes do genocídio em Ruanda, e os membros da Blk Jks (foto) vêm do bairro pobre de Soweto, localizado nos arredores de Johannesburgo.
No passado, artistas africanos se queixaram de sua música ser apresentada como "exótica" e de terem seus direitos criativos usurpados por gravadoras, estúdios e empresas de administração europeias e americanas. Mas os selos indie parecem ter consciência dessas preocupações. Além disso, a geração atual é feita de artistas mais conectados que seus predecessores, mais aptos para defender seus direitos.
Os chefes dos selos indie que fizeram suas apostas modestas na música africana também apontam para a globalização e a internet, que realmente transformaram algo que, no passado, era distante, em algo que está a apenas um clique de distância.
"Existem ouvintes de todos os tipos no mundo, e muitos deles têm acesso a todos os tipos de música", disse Poneman.


Folha de São Paulo, segunda-feira, 07 de fevereiro de 2011

31 de dez de 2010

Programas para ouvir

Ola,

tem alguns programas que podem ser ouvidos no site do Irdeb:

01 - Festival Música Mestiça (link)
Um programa sobre o Festival Música Mestiça, que conta com a presença de diversos países.

02 - Festival Black to Black (link)
O programa traz o som do festival Back to Black, que aconteceu no Rio de Janeiro.

03 - Seleção Musical (link)
Tell Me, Asa, na faixa Fire on the Mountain, Keziah Jones, com a canção Lagos X NY, entre outros.

04 - DJ Álvaro Panafricano (link)
O som das orquestras Gnawa e Berbes, o Coral da África do Sul, as bandas Tinariwen e Kalibrados, entre outros.

05 - Diversidade musical (link)
O programa é marcado pela diversidade de artistas e de estilos do continente africano.

06 - Alexandra Gomes (link)
As músicas de Rokia Traoré, Mayra Andrade, Cesária Evorá, Angelique Kidjo, Ayo Miriam Makeba e muito mais.

07 - Ali Farka Touré (link)
O som de Ali Farka Touré, Amadou & Mariam, Tinariwen, Bembeya Jazz e muitos outros.

08 - Artistas diferentes (link)
O programa traz quatro blocos com artistas diferentes de lugares inusitados da África.

09 - Somi (link)
O terceiro disco da cantora e compositora norte-americana Somi, intitulado If the Rains Come First.

10 - A exposição Panáfrica (link)
Um passeio pelos países que se destacaram na grande exposição Panáfrica.

11 - Amadou & Mariam (link)
Um especial com Amadou & Mariam, fazendo um passeio por todos os discos da carreira.

12 - Youssou N'Dour (link)
Os ritmos do Senegal e de Mali comandam o programa.

13 - Etiópia e Congo (link)
Um passeio por dois países importantíssimos do continente africano quando o assunto é música: a Etiópia e o Congo.

14 - Oumou Sangaré (link)
Destaque para o som contagiante de Oumou Snagaré.

15 - Fela Kuti (link)
Confira o som de Fela Kuti, Jah Fakoli, Angelique Kidjo, Hugh Massakela e muito mais.

16 - Seun Kuti (link)
Seun Kuti, filho do lendário Fela Kuti, é um dos destaques do programa.

17 - Copa do Mundo 2010 (link)
Escute um programa especial com artistas e grupos da Nigéria e da Argélia.

18 - A mistura de ritmos do continente africano (link)
Victor Démé de Burkina Faso, Paulo Flores, de Angola, Mamani Keita do Mali e muitos outros.

19 - Staff-Benda Bilili (link)
O disco Très Très Fort da banda Staff Benda Bilili, sensação da música congolesa.

20 - Seleção Especial (link)
Mamani Keita, Miriam Makeba, Mulatu Astatke, Amadou et Mariam, Mayra Andrade, Angelique Kidjo e muito mais!

21 - Tinariwen (link)
Youssour N’Dour, Tinariwen, Fela Kuti e muito mais no repertório do programa.

22 - África do Sul (link)
Programa em clima de Copa do Mundo destaca artistas da África do Sul.

23 - Angélique Kidjo (link)
Um programa dedicado a Angélique Kidjo.

24 - Ancestralidade e contemporaneidade (link)
O programa traz o passado e o contemporâneo da música africana em um só programa.

25 - Homenagem ao dia dos pais (link)
Uma seleção muito especial com a produção musical de dois artistas africanos e seus filhos.

26 - Diversos países do continente (link)
Um som único que vai levar você a uma viagem musical pela África. No programa diversos países mostram seu som.

27 - seleção especial (link)
Uma seleção musical muito especial com o melhor som do continente africano.

28 - Copa do Mundo 2010 II (link)
O programa Rádio África faz um passeio musical pelo país da Copa do Mundo de 2010.

29 - Continente Negro (link)
O som de Femi Kuti, filho de Fela Kuti, pelas jovens cantoras ASA e Ayo, a Orchestra Baoba e muito mais.

30 - Mayra Andrade, Fela Kuti, Tinariwen (link)
O DJ Sankofa faz uma viagem musical que passará pelo som de Youssou N'Dour, Fela Kuti, Tinariwen, Mayra Andrade, Bembeya Jazz Orchestra.

31 - Playlist especial (link)
Habib Koité, Tinariwen, Orquestre Poly-rhytmo de Cotonou, Paulo Flores e Amadou e Marian.

32 - Mokhtar (link)
O Rádio África traz Mokhtar Samba, um dos maiores bateristas do mundo.

33 - Artistas do Percpan (link)
O programa traz os artistas que participam da 17ª edição do Percpan.

34 - Viagem pelo continente (link)
Escute belas músicas e toda a diversidade da música do continente africano.

35 - Panorama pelo continente (link)
Manu Dibango, Rajery, Hugh Massakela, Femi Kuti, Keziah Jones e muito mais!

36 - Viagem musical pelos países africanos (link)
Escute o melhor da música africana e faça uma viagem musical por diversos países deste continente.

37 - Tradição e novidades (link)
O Rádio África traz as novidades músicais e tradição do Continente Africano.

38 - Gana e Senegal (link)
Um programa especial sobre Gana e Senegal. Não perca esta seleção que não vai deixar ninguém sentado!

39 - Staff Benda Bilili (link)
Talentosos músicos do Congo, que deixaram as ruas para rodar o mundo com sua música.

40 - melhor do continente (link)
Escute a diversidade musical do continente no programa Rádio África.

41 - Nigéria (link)
O Rádio África traz os principais sons da Nigéria, um dos mais importantes países do continente.

42 - Cheick Tidiane (link)
O Rádio África faz uma viagem musical com o disco do grande Cheick Tidiane.

43- Especial de Natal (link)
DJ Panafricano e Roberto Barreto comandam a seleção musical especial de Natal.

16 de jul de 2010

Programa Rádio África do dia 17/07/2010 traz especial com a banda congolesa Staff Benda Bilili


Conforme já havíamos comentado em programas anteriores, a Staff Benda Bilili - formada por músicos de rua paraplégicos - atualmente é uma das boas bandas vindas da República Democrática do Congo. Neste sábado a partir das 19:00 vocês poderão conferir, com a apresentação de Roberto Barreto e Lúcio Magano, as músicas do disco Trés Trés Fort, lançado no ano passado pelo selo belga Crammed Discs.

O programa Rádio África vai ao ar todos os sábados às 19:00hs pela Educadora FM 107.5, no dial do seu rádio, e também pode ser ouvido no site do IRDEB. Se você não escutou esse programa ou algum outro anterior, lembramos que pode acessar nosso catálogo de áudios.


Destacamos pra vocês alguns links para conhecer um pouco mais sobre a Staff Benda Bilili.


Se você gostou dessa postagem, se você acompanha o Rádio África, ou se você gostou de algum programa / artista, clique no link "comentários" abaixo e envie sua mensagem para a equipe do programa! A gente manda o som e também quer escutar você.

créditos da imagem: www.crammed.be

Chegou Julho, chegou o mês do FMM


O FMM Sines – Festival Músicas do Mundo prepara-se para voltar a surpreender os espectadores com os 26 espectáculos da sua 12.ª edição, marcada para quatro intensos dias de música – 28, 29, 30 e 31 de Julho de 2010 – nos palcos do Castelo medieval e da Praia Vasco da Gama, em pleno coração do centro histórico de Sines.

Os congoleses Staff Benda Bilili, o mais premiado grupo do ano, a lenda do reggae U-Roy,The Mekons, banda britânica que partiu do pós-punk para a fundação do movimento alt-country, e Tinariwen, expoente contemporâneo dos blues do deserto, são alguns destaques da programação de concertos (ver programação completa).

Os interessados em adquirir bilhetes para o FMM 2010 já podem fazê-lo no circuito da Ticketline, que inclui a compra online e a compra presencial em dezenas de lojas por todo o país.

fonte: http://fmm.com.pt/

6 de jun de 2010

Staff Benda Bilili canta para erradicar a poliomielite

Crédito: Crammed


Staff Benda Bilili es un grupo de músicos callejeros, inválidos a causa de la polio, que viven en los alrededores del antiguo zoo de Kinshasa (RD del Congo) y se desplazan en unas sillas de ruedas tuneadas con aspecto de Harley-Davidsons para pobres. Sus canciones han sido el pasatiempo preferido durante el trabajo que realizaban como taxistas entre Kinshasa y Brazzaville, aprovechando la exención de impuestos autorizada por el gobierno. Dos cincuentones, Ricky Likabu y Coco Ngambali, son los líderes de Staff Benda Bilili; su miembro más joven se llama Roger, tiene 17 años y se ha inventado un laúd a partir de un bote de leche en polvo, un trozo de red para pescar, cable eléctrico y un pequeño palo curvo de madera insertado en el bote. Su disco de debut, Très très fort, lleva cinco meses liderando la lista europea de músicas étnicas.

La filosofía vital de Staff Benda Bilili, que huyen de la mendicidad, consiste en no desfallecer: ser fuertes y sentirse orgullosos. Su música es una seductora mezcla de la clásica rumba congoleña con funk a lo James Brown, ritmos afrocubanos mezclado con rythm & blues y reggae. Los músicos, que se consideran los voceros de la vida cotidiana en Kinshasa, reflejan en sus canciones cualquier aspecto destacado de la actualidad congoleña, ya sea el aumento del precio de los alimentos o la importancia que tiene la vacunación de los niños contra la polio. "Porque la única discapacidad real no está en el cuerpo sino en la mente", dicen, orgullosos, en posición de guardia constante contra una enfermedad que, según la Organización Mundial de la Salud, aún afecta de manera endémica a cuatro países en vías de desarrollo, Afganistán, India, Nigeria y Pakistán. La tenacidad y no poca audacia ante las adversidades de la enfermedad son, sin duda, las primeras lecciones que transmite Staff Benda Bilili, cuyo nombre significa "mira más allá de las apariencias".

Su salto a la fama, revelado al mundo tras la visita que Damon Albarn y Massive Attack realizaron hace dos años a África con el proyecto Africa Express, ha encandilado al público occidental. "Valió la pena venir hasta aquí sólo para conocerlos", afirmó Robert del Naja (Massive Attack), conmovido ante la voluntad de hierro del conjunto congoleño, que grabó bajo un árbol apenas con ayuda de un ordenador portátil enchufado al motor del bar local. El disco Très très fort desembarcó en el mercado occidental al calor del éxito mayúsculo logrado por Konono Nº1 y Kasai All Stars en la serie Congotronics (Crammed Discs).

El grupo que prepara ya su segundo disco, realizará una extensa gira por Europa este 2010. Mientras tanto, los cineastas franceses La Belle Konoise estrenaron recientemente en el Festival de Cine de Cannes un documental sobre el grupo que cuenta su particular historia con su propia música como banda sonora. Tras su paso por el festival, actuarán por diversas ciudades españolas en el mes de julio.

Gira española de verano:

29/06/10: Girona (Festival de Músicas Religiosas y del Mundo)
14/07/10: Barcelona (Caixa Fòrum)
15/07/10: Madrid (Caixa Fòrum)
16/07/10: Cartagena (Festival La Mar de Músicas)
17/07/10: Alcalá La Real - Jaén (Etnosur)
18/07/10: Vilanova i la Geltrú - Barcelona (Festival FIMPT)







(http://www.gladyspalmera.com/news/detail/3171/staff/benda/bilili/canta/erradicar/polio.html)

4 de jun de 2010

Copa 2010


Caros Ouvintes,

Nessa copa vamos ter programas especiais, de acordo com os países que estão jogando:

dia 05/06 - África do Sul

dia 12/06 – Nigéria e Argélia

dia 19/06 – Camarões e Gana

dia 26/06 – Costa do Marfim e África do Sul


Os demais programas seguirão de acordo com a classificação dessas seleções na copa.


31 de mai de 2010

Damian Marley e Nas

Dueto incomum homenageia a África
Parceria une nova-iorquino e jamaicano
Por ROB KENNER

A África anda no centro das atenções. A Copa do Mundo da África do Sul começa na semana que vem. Os EUA têm um presidente com pai queniano. E até na Broadway o musical afrocêntrico "Fela!" coleciona indicações ao prêmio Tony.
Um recente show em Manhattan e o lançamento de um álbum inovador são novas evidências da atual proeminência da África.
Com tranças tão longas que quase tocam suas botas, Damian Marley chegou em março ao Fillmore, em Nova York, com uma missão furtiva. Esse astro jamaicano do dancehall, também conhecido como Jr Gong, e o rapper nova-iorquino Nasir Jones, o Nas, planejavam surpreender a plateia de um show do artista de hip-hop K'Naan com uma música de "Distant Relatives", novo álbum da dupla.
Eles entraram por uma porta lateral, pararam no meio da multidão do camarim e assistiram à apresentação do somali K'Naan. Mas logo K'Naan apresentou Nas, ovacionado com "New York State of Mind" (1992). Em seguida, Marley cantou "I Come Prepared", um áspero dueto do álbum mais recente de K'Naan, "Troubadour". E aí chegou a hora dos Distant Relatives ("parentes distantes") juntarem forças. Para delírio da plateia, a dupla começou com "As We Enter", duelo em cima de uma estranha batida de break executada pelo jazzista etíope Mulatu Astatke.
"O cara vai falar um patois [inglês falado no Caribe]", disse Nas, "e eu posso falar como astro do rap". Ele concluiu sua saraivada de versos com uma saudação em suaíli: "Habari gani". Ao que Marley respondeu "Nzuri sana", como se estivessem conversando nas ruas de Nairóbi.
Essas inesperadas misturas culturais estão no coração de "Distant Relatives", novo álbum em que eles exploram a ancestralidade comum que conecta esses dois artistas, oriundos de países e gêneros musicais diferentes, e toda a raça humana.
"Realisticamente, a África é o lugar mais rico do mundo, mas as pessoas não se beneficiam da sua riqueza", disse Marley, filho mais novo de Bob Marley, em entrevista.
"Quando a África for desenvolvida, será a maravilha do mundo, porque vai poder fazer uso de todos os erros das outras nações. Mas isso não vai cair do céu. Então temos de investir trabalho nisso."
"Distant Relatives" não foi concebido como uma colaboração com músicos africanos, como "Graceland", de Paul Simon. O álbum foca a ideia de África, tirando força de um continente que influencia a cultura do hip-hop e do reggae desde o final da década de 1970.
"Este álbum simplesmente não teria funcionado há dez anos", disse Mark Anthony Neal, professor de cultura negra da Universidade Duke, na Carolina do Norte. "Mas, como a África é o que há de mais 'cool' a esta altura, funciona ao contrário. A esperança é que Nas e Damian possam levar a conversa além de simplesmente ser a coisa 'cool' para usar num refrão."
À primeira vista, Marley, 31, e Nas, 36, formam de certa maneira um par estranho. Um é rastafári declarado; o outro é uma espécie de hedonista do hip-hop.
Nas já havia sido parceiro de Marley em um verso de "Road to Zion", tocante single do álbum "Welcome to Jamrock" (2005), que rendeu um Grammy a Marley.
Eles se reuniram quatro anos depois para um EP, mas o projeto, uma vez começado, ficou mais ambicioso. A canção "Friends" está construída em torno de um trecho de "Undenge Uami", do cantor angolano David Zé; "Patience" insere "Sabali", aflitiva canção de Amadou & Mariam, dupla do Mali formada por marido e mulher. Assim como com o jazz etíope de Astatke, "Patience" é uma colaboração intercultural que salienta o entrelaçamento entre a África e o Ocidente.
Nas quer um dia fazer uma turnê pela Terra-Mãe. "Nós vamos para a África, filho", disse. "Temos muito que conversar com os nossos camaradas africanos por lá. Isso não é um jogo."

The New York Times
Folha de São Paulo, segunda-feira, 31 de maio de 2010

25 de mai de 2009

Música africana na Internet

Tema será apresentado por Simão Souindoula durante o VI Simpósio de Música Africana em Agosto. 06.01.2009

Adriano de Melo

A expansão da música africana e sua inserção na dinâmica da nova era tecnológica será o tema de uma palestra a ser proferida pelo historiador Simão Souindoula, durante os trabalhos do VI Simpósio de Música Africana, que terão lugar na capital do Congo, Brazzaville, de 3 a 7 de Agosto.

Considerada pelo especialista como “uma temática bem actual e crucial nesta era da globalização”, o encontro permitirá, de acordo ainda com Simão Souindoula, mostrar que “a oportuna inserção da música africana na Internet permite hoje navegar e explorar as várias culturas de África, transmitidas ao público a partir das canções”.

Denominado “A Música Africana no Cruzamento dos Caminhos da Globalização”, o especialista que representou, durante anos, o Centro Internacional das Civilizações Bantu (CICIBA)  no conselho de administração deste simpósio, apresentará uma comunicação com o título “A Música Africana Digital, o seu Potencial na Internet e os seus Efeitos no Mercado Internacional”.

Para Simão Souindoula, que é consultor da UNESCO e da União Africana no domínio da expansão das indústrias culturais no espaço da Comunidade Económica dos Estados da África Central (Ceeac), “o desenvolvimento digital das expressões musicais africanas permitirá melhorar os seus resultados financeiros no mercado internacional, que mantêm-se há anos a menos de um por cento do comércio mundial dos suportes musicais”.

Na linha do tema do encontro, o historiador angolano recordará que a Internet e as novas tecnologias são um trunfo para a música do continente, por permitirem aos diversos provedores criarem sites e marcas, proveitosas na expansão e divulgação dos hábitos e costumes africanos.

O especialista avançou ainda que fará, durante o encontro, uma avaliação das consultas de alguns “sites” na Internet que oferecem música africana, tais como as marcas inglesas World Circuit, que produziu o maliano Ali Farka Toure e a orquestra Baobab de Dakar, e a francesa Spirale –DG Diffusion, que lançou o documentário musical “Justo Valdez e la Rumba Palenquera”, em homenagem ao percussionista Batata.

Segundo o historiador angolano, a sua participação nas actividades do Festival Panafricano de Música 2009 (Fespam), ajudará a contribuir para um melhor conhecimento da música africana, com informações decisivas sobre a sua evolução modernista, a sua organologia e o seu contributo para as lutas de libertação em África.

“Esta última vertente vai constar nas actas do último Simpósio de Música Africana, sobre o lema ‘O papel da música na libertação de África’, que será lançada, em Paris, no próximo dia 25 de Maio, Dia de África, pelas edições Harmattan, e terá também um estudo meu intitulado ‘O conjunto Nzaji. O ícone da música revolucionária angolana de exílio’”, explicou.

fonte: Jornal de Angola

disponível na Casa das Africas

12 de mar de 2009

Angola e Bahia unidas pela arte

O cantor angolano Dog Murras engata parceria com os baianos Márcio Victor e Carlinhos Brown para popularizar o ritmo africano no Brasil
CHICO CASTRO JR.
ccastrojr@grupoatarde.com.br

Se depender do cantor angolano Dog Murras e do baiano Márcio Victor, do Psirico, o ritmo do kuduro – original de Angola – não sai de moda tão cedo. A dupla prepara para breve o lançamento do álbum Kuduro Brasil, uma jogada decisiva para popularizar de vez a batida d‘além mar em terras brasileiras.

Em outra frente, Murras, Victor e Carlinhos Brown tocam outro projeto, denominado Angobahia.

O rapaz de Luanda, que participou do Carnaval em cima do trio com Victor, define o projeto como uma “iluminação divina.

Temos conversado muito e a gente identifica visões comuns e problemas comuns. Eles (Victor e Brown) têm preocupações com o povo da Bahia e eu, com o povo de Angola“.

Sobre o Kuduro Brasil, Márcio Victor define o projeto como “diferente do Angobahia , que é mais conceitual. O Kuduro Brasil é comércio mesmo, vamos fazer muitos shows pelo Brasil, vamos tirar um tempo pra fazer essa turnê, eu e ele“.

O que não está certo ainda é a data em que essa maratona começa.

“Vai ter um lançamento, mas não temos ainda previsão.

Ele está indo para Angola agora, mas volta em maio“, disse Victor.

De certo é que sai esse ano. “O Kuduro Brasil vai ser lançado ainda esse ano com a Penteventos, que vai tocar esse barco. O Dog vai trazer dançarinos e tudo“, acrescentou.

Na semana passada, a dupla gravou o clipe da música Kuduro de Fogo, que logo vai ser lançado.

“Nós mesmos dirigimos, gravamos na produtora A Ilha. É um clipe com cenas picantes, muita mulher e muito kuduro“, disse.

Segundo Dog Murras, o kuduro surgiu em Angola como “uma cópia mal feita da música dance tecno europeia. A ela foram se juntando guitarras tocadas à moda angolana. Para dar a patente da Angola, misturei o kuduro com o kazukuta, que é o ritmo do carnaval angolano“.

“Hoje o kuduro é sem dúvida a maior manifestação cultural de Angola, terra do diamante, do petróleo e do kuduro“, acredita Dog Murras.

Márcio Victor descreve o Kuduro Brasil como uma fusão: “Tem sons programados, sim, mas misturado com a pegada orgânica da gente, com surdo e timbau“.

Já o projeto Angobahia tem um caráter um tanto mais didático do que o Kuduro Brasil.

“É mais ou menos como uma ong. Queremos abrir uma escola em Angola, além de promover espetáculos aqui (na Bahia) e lá em Angola. Haverá a gravação de um documentário sobre esse nosso encontro“, enumera Dog.

“O Angobahia é um projeto que se pretende histórico. Nossa finalidade é que várias pessoas bebam dessa fonte, pois nele poderão ser pesquisadas várias linhas de ritmo e melodia. A ideia é transformá-lo numa fonte de pesquisa“, afirma o angolano.

Por enquanto, ainda não há previsão sequer do término das gravações. “O problema é conciliar as agendas dos três (Dog, Victor e Brown)“, confessa.

”Quando podemos nos encontrar aqui, gravamos. Temos umas cinco músicas já gravadas.

Como fazemos naturalmente, sem pressa, não temos previsão de nada ainda. Mas temos certeza que é um projeto que vai beneficiar Angola e Brasil”.

”Trata-se de resgatar traços culturais que nossos antepassados trouxeram para cá e ficaram melhor conservados aqui do que lá em Angola, como o batuque, a capoeira e o candomblé, que os colonizadores portugueses proibiam os angolanos de praticar”, conta Dog.

”Por isso queremos criar essa escola em Luanda. Ela seria o ponto de resgate dessas tradições”, conclui.

fonte:
A Tarde
EDIÇÃO DO DIA 10.03.2009
Sotaque Baiano - Página 8

24 de fev de 2009

Kuduro no pé

Thiago Teixeira/Agência A TARDE

Cleidiana Ramos, do A TARDE

O Kuduro virou uma das coqueluches do Carnaval deste ano por conta do hit do Fantasmão: Isso não é samba/ Essa mania vem de Luanda/ Kuduro, Kuduro, Kuduro, Kuduro. Mas a intimidade baiana com a dança importada de Angola é bem mais antiga do que a adoção do ritmo pelo reino do pagode.

Em Plataforma, a Academia de Kuduro Baiano-Angola, que funciona de forma itinerante, já divulga o ritmo pela cidade desde 2000. Durante a folia de Momo em Salvador a turma do kuduro ganhou um reforço de peso: o cantor angolano Yuri da Cunha que é especialista em outros ritmos como o semba, mas que também toca o kuduro.
O kuduro nasceu em Angola como um ritmo de rua na década de 90. Viveu um período de marginalização até que no ano passado virou moda no país.
“Minha ligação com o kuduro começou em 2001 por meio de Dog Murras, que divulgou o ritmo. O ano passado durante a minha apresentação na festa de aniversário do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, eu cantei o kuduro. O presidente cantou e dançou. No outro dia só se falava nisso”, conta Yuri.
Molejo – O nome da dança remete realmente à forma como o bumbum fica em alguns momentos da perfomance. Daí para a frente é só ir mantendo o ritmo, mas, para ser leal à sinceridade, não é facil ganhar o molejo dos experts como Bonês, Bela, Filomena e Yuri Barata, que acompanham Yuri da Cunha ou Álvaro Di Amaro, Alda Valéria, Nadjara e Sendji Fortunato, da Academia.
Mas vale dizer que o ritmo contagiante ajuda muito. “É uma dança que é feita com elementos de outros ritmos, como o hip hop, com os movimentos soltos ”, conta Sendji. Foram os seus pais que apresentaram o ritmo a Álvaro.
“Isso foi em 1995. A gente começou pensando em fazer umas festas de divulgação do kuduro. A coisa foi crescendo, acabou em um projeto social e finalmente na Academia”, acrescenta.
Pagode – A longa história do kuduro fica ofuscada diante da versão pagode que ela tomou a partir do ritmo de Fantasmão. Embora a turma que o conheça de longas datas faça questão de destacar que a forma pagodeira fica bem longe da original, a fama repentina está ajudando na divulgação do verdadeiro formato do ritmo.
“Se tem este lado ruim da música ganhar as ruas numa versão que é distante do que ela realmente é, tem o lado bom que é fazer com que as pessoas sintam a curiosidade de saber o que é o kuduro de fato”, completa Sendji.
E a participação de Yuri da Cunha no Carnaval- ele hoje ainda se apresenta no Circuito Dodô (Bara-Ondina a partir de meia-noite- também tem aberto espaço para que a Bahia conheça outros ritmos de além-mar como o semba. Aos 28 anos, Yuri tem uma longa e premiada carreira musical tanto em Angola como em Portugal.
“Eu agora estou pensando em investir também em ficar mais conhecido aqui na Bahia”, conta o cantor. Neste Carnaval ele já fez participação especial no trio e no camarote de Daniela Mercury, no camarote Lotus e cantou com Alexandre Pires, ao lado de quem deseja realizar novos projetos.

23 de fev de 2009

O que é que o kuduro tem?

O que é que o kuduro tem?
Conheça o ritmo angolano que faz sucesso no carnaval de Salvador
Da redação (iG)

Não há como permanecer sério quando se ouve a palavra pela primeira vez: kuduro. Esse é o nome do ritmo angolano que está bombando no carnaval de Salvador. Artistas como Daniela Mercury, Margareth Menezes, Carlinhos Brown, Psirico e Ivete Sangalo já atualizaram seus repertórios com a batida frenética. O grupo soteropolitano Fantasmão até compôs uma música, no ritmo, com letra que tenta explicá-lo. Mas, afinal, o que é o kuduro?

Kuduro é uma mistura de semba, um ritmo angolano tradicional, com batidas eletrônicas. O semba, aliás, é velho conhecido dos brasileiros, pois ele é também o ancestral do samba. Talvez por isso o sucesso do ritmo não só em Salvador, mas também no Rio de Janeiro, cidades onde já existem grupos que cantam na cadência do kuduro. Já o nome “kuduro” pode ser uma referência ao principal passo desta dança: a contração das nádegas. “O kuduro tem tudo a ver com o axé. Os dois tem a mesma levada, e se baseiam muito no som da percussão”, afirma o cantor angolano Dog Murras.

Ele veio ao Brasil pela primeira vez há cinco anos e, desde então, tem se empenhado em promover o intercâmbio entre as músicas brasileira e angolana. Em angola, o kuduro é cantado em português, com algumas expressões em kimbundo, uma das línguas locais. No Brasil, Dog Murras fez parceria com Márcio Victor, vocalista do Psirico, e Carlinhos Brown, gravando a canção “Semba Muloji”, que fez sucesso nas rádios de Luanda no ano passado. Os três planejam a gravação de um CD/DVD chamado “Angobahiá”, que incluirá não só o kuduro mas ritmos como kazukuta, semba, axé e samba reggae, com o objetivo de resgatar as origens africanas da música brasileira preservadas na Bahia.

link original

12 de nov de 2008

Miriam Makeba (1932-2008)

Morre na Itália a cantora sul-africana Miriam Makeba

A cantora sul-africana Miriam Makeba, 76, conhecida em todo o mundo como Mama África e famosa no Brasil pela música "Pata Pata", morreu na madrugada desta segunda-feira (10) em conseqüência de uma parada cardíaca depois de ter participado em um concerto a favor do escritor Roberto Saviano, ameaçado de morte pela máfia, na região de Nápoles.

A cantora Miriam morreu após participar de show em homenagem ao escritor Roberto Saviano, ameaçado pela máfia
A cantora morreu após participar de show em homenagem ao escritor Roberto Saviano

Voz lendária do continente africano e um símbolo da luta contra o regime do apartheid, Miriam Makeba passou mal depois de ter cantado por 30 minutos em um show dedicado ao jovem autor do livro "Gomorra" em Castel Volturno.

"Foi a última a sair do palco, depois de outros cantores. Houve um bis e neste momento alguém perguntou se havia algum médico entre o público. Miriam Makeba havia desmaiado e estava no chão", afirma um fotógrafo da agência France Presse presente ao evento.

Levada rapidamente para uma clínica de Castel Volturno, ela morreu em conseqüência de uma parada cardíaca.

Mais de mil pessoas compareceram ao concerto antimáfia, em uma área considerada um reduto da Camorra, a máfia napolitana, onde seis imigrantes africanos e um italiano foram assassinados em setembro passado em circunstâncias não esclarecidas.

Em "Gomorra", Roberto Saviano submerge o leitor no império da Camorra. O livro, traduzido para 40 idiomas, foi adaptado para o cinema e recebeu o prêmio do júri no último festival de Cannes e foi escolhido para representar a Itália no Oscar.

Miriam Makeba nasceu em 4 de março de 1932 em Johannesburgo. Ela começou a cantar nos anos 1950 com o grupo Manhattan Brothers e, em 1956, compôs "Pata, Pata", canção que seria seu maior sucesso.

A cantora viu seu país mudar com a chegada ao poder, em 1947, dos nacionalistas africaners. Aos 27 anos deixou a África do Sul pela carreira e teve a entrada proibida no país pelo compromisso com a luta antiapartheid, incluindo a participação no filme "Come Back, Africa".

O exílio durou 31 anos, em diversos países. A cantora fazia muito sucesso, mas seu casamento em 1969 com o líder dos Panteras Negras Stokely Carmichael, do qual se separou em 1973, não agradou as autoridades americanas, que a forçaram a emigrar para Guiné.

Depois da morte da filha única em 1985, voltou a viver na Europa, mas em 1990 Nelson Mandela a convenceu a retornar para a África do Sul.

Folha de São Paulo - 10/11/2008
da France Presse, em Roma

13 de ago de 2008

Seun Kuti

Filho de Fela Kuti revê afrobeat
O músico nigeriano Seun Kuti retoma o gênero criado pelo pai em seu CD de estréia, "Many Things"
Disco é parceria com a Egypt 80, "big band" que tocou com Fela nos anos 80 e 90; Seun teve ajuda de Barack Obama para tocar nos EUA
BRUNA BITTENCOURT
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

"Eu sou totalmente influenciado pela música do meu pai", diz o nigeriano Seun Kuti. E é difícil não lembrar de Fela Kuti, um dos maiores músicos africanos -se não o maior-, ao ouvir o álbum de estréia de Seun, "Many Things".
O músico herdou do pai as letras de cunho político, o afrobeat (uma fusão entre jazz, funk e ritmos africanos criada por Fela nos anos 60), que percorre o disco, além da banda que o acompanhou na década de 80 e no começo dos anos 90.
Desde a morte do pai, vítima da Aids em 1997, Seun, 26, lidera a Egypt 80, uma das mais reverenciadas bandas em atividade, que bebe na tradição das "big bands", com um entrosamento de mais de 20 anos.
Doze dos 16 membros do grupo tocavam com Fela em shows diários no clube do músico, o Shrine, em Lagos (Nigéria).
Seun (pronuncia-se Shehoun) era uma espécie de mascote da banda, com a qual viajava, dançava e cantava desde os oito anos de idade. "Eu nunca quis ser o homem de frente da Egypt, mas depois da morte do meu pai, pensei: "E se eu continuar a tocar com ela?"."
Acompanhado pela banda, Seun canta letras sobre corrupção, descaso das autoridades e doenças, como em "African Problems" e "Mosquito Song".
Há em seu jeito de cantar uma visível influência do rap. O inglês, que escolheu para cantar suas faixas e que não esconde seu forte sotaque nigeriano, é herança do período em que estudou música na Inglaterra, assim como o pai nos anos 60.
Mas Seun não é o único músico da família: Femi Kuti, também bastante influenciado pelo afrobeat, tocou no Brasil na última edição do festival Free Jazz Festival, em 2000.

Barack Obama
Antes da turnê européia com a qual segue atualmente, Seun passou pelos EUA. O músico e sua banda só obtiveram o visto depois de uma intervenção de Barack Obama, fã de Seun.
O país tem hoje uma série de bandas influenciadas pelo afrobeat, como Nomo, Budos Band ou Antibalas, que reforçam a revitalização que Seun faz do gênero. "Eu gosto do que eles estão fazendo porque mostra que o gênero está crescendo", diz. "Já tinha cansado de ouvir as pessoas dizerem que o afrobeat era uma coisa antiga."
MANY THINGS
Artista: Seun Kuti & Fela's Egypt 80
Gravadora: Disorient
Quanto: US$ 14,99 (R$ 24,19; mais taxas) na Amazon (www.amazon.com)

Fonte: Folha de São Paulo, segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Nneka

Cantora nigeriana radicada na Alemanha lança segundo disco, "No Longer at Ease", e arrebanha críticas elogiosas ao fundir ritmos como funk, afrobeat, hip hop, jazz e soul
ADRIANA FERREIRA SILVA
EDITORA DO GUIA DA FOLHA

Nneka é bela e tem uma belíssima voz. Seu marcante acento e sua rebelde cabeleira, penteada em estilo black power, revelam suas origens africanas, declaradas também em letras e rimas. Rimas essas que versam ainda sobre as mais íntimas aflições da moça, embaladas por reggae, rap, jazz, funk, trip hop, soul.
Com tudo isso, dá para entender porque publicações como o jornal inglês "Sunday Times" e os franceses "La Marseillaise" e "Libération", entre outros, a apresentam como "a nova Lauryn Hill".
A comparação faz sentido, e a diva americana e sua extinta banda, o Fugees, são, declaradamente, uma de suas referências. Mas Nneka Egbuna tem personalidade e atitude de sobra para ser mais do que apenas uma sucessora de "miss Hill". E se a aposta dos críticos estiver correta, seu primeiro disco, "Victim of Truth" (2005), teria sido um "best-seller global" se lançado em Nova York.
Se a estréia impressionou, em "No Longer at Ease", álbum que saiu neste ano no exterior (leia crítica nesta página), Nneka aprimora suas influências e, pela primeira vez, é ouvida pelo grande público.
Foi graças a ele que as pessoas descobriram o CD anterior. E é também por ele que seu nome figura no line-up de festivais europeus ou abrindo para artistas como Sean Paul e a dupla Gnarls Barkley.
Mas Nneka parece passar ao largo das apostas e comparações. "As pessoas têm necessidade de relacionar um artista ao outro. A mídia precisa disso. Eu não", disse a cantora à Folha em entrevista realizada por telefone.
"De certa forma, é um prazer ser comparada a Lauryn Hill, porque ela é alguém que, definitivamente, tem algo a dizer. Você sente e ouve isso em suas letras", fala Nneka.
"Na verdade, ela é grande demais para ser comparada ao que estou fazendo."

Histórias
Nascida em Warri, a "cidade do petróleo", na Nigéria, Nneka, 27, tem muito a contar. Atualmente, ela trafega entre a terra natal, onde mora seu pai, e Hamburgo, na Alemanha, para onde se mudou aos oito anos, por motivos sobre os quais ela pouco fala. "Nunca foi minha intenção vir para cá [Hamburgo]. Tive problemas pessoais e, por coincidência, estava na Alemanha na época, mas sou mais africana do que européia."
Formada em antropologia, Nneka canta desde sempre, mas, só nos últimos três anos transformou seu hobby em profissão. "Nunca tive chance de fazer música. Minha família não tem nada a ver com a música. Meu pai é um arquiteto que se tornou fazendeiro. Sobre minha mãe [que é alemã], sei pouco. Não cresci com ela", conta.
"Escrevia sempre que sentia saudades da Nigéria. Quando estava sozinha. Era uma terapia para lutar contra a tristeza."
Além de sentimentos pessoais, suas letras tratam de problemas sociais e políticos da África e, segundo ela, refletem mais ou menos sua experiência de vida. "O que acontece ao meu redor e as pessoas com as quais convivo são minha grande inspiração", descreve.
Neste ponto, a influência do conterrâneo Fela Kuti, o criador do afrobeat, se sobrepõe à do hip hop norte-americano ou à do reggae jamaicano, dois ritmos marcantes no diversificado estilo de Nneka. "Fela Kuti é uma grande inspiração para todos os nigerianos. Ele e sua luta pela democracia e pela liberdade artística", diz. "Fela é o rei do afrobeat; um dos pais da música africana. Ele era capaz de exprimir as vontades do povo."

Diversidade
Ainda que a Nigéria seja o principal tema das canções de Nneka, e suas ruas o cenário de seus clipes -todos disponíveis no YouTube-, ela concorda que jamais teria feito um disco como "No Longer at Ease", ou mesmo "Victim of Truth", se estivesse morando na África.
"Se não tivesse saído de lá, jamais teria tido a chance de viver por mim mesma e de ver certas coisas", acredita. Além disso, Nneka não teria conhecido o DJ alemão Farhot, que delineou a sonoridade de seus dois álbuns -o segundo teve ainda a participação do produtor francês Jean Lamoot, conhecido por trabalhos com Salif Keita e Noir Desir.
Em ambos, Nneka se reveza rimando e cantando num estilo muito próprio. "Se tivesse que colocar em uma categoria, o primeiro disco é hip hop, afro hip hop e soul", afirma. "Já "No Longer at Ease" não sei como definir. É um CD repleto de diversidade e, ao mesmo tempo, muito pessoal. Fala de temas que me tocam muito seriamente. Diria que é louco."
E é por essa diversidade, certa dose de loucura e originalidade, que Nneka deve dar o que falar daqui para a frente.


Frases

"É um prazer ser comparada a Lauryn Hill, porque ela é alguém que tem algo a dizer. Você sente e ouve isso em suas letras"

"Escrevia sempre que sentia saudades da Nigéria. Era uma terapia contra a tristeza" NNEKA, cantora



ISSO É NNEKA

AFROBEAT
Fela Kuti, o criador do afrobeat -ritmo que mistura jazz, funk e ritmos africanos-, influenciou artistas do mundo inteiro, e, especialmente, os de seu país, onde é praticamente um mito. Segundo Nneka, suas letras e posições políticas inspiraram a liberdade artística e de expressão de todos os nigerianos

RITMOS JAMAICANOS
Bob Marley, King Tubby, Lee Perry e outros bambas da música jamaicana também estão presentes na sonoridade da cantora, que passeia pelo reggae e o ragga com igual desenvoltura

NINA SIMONE
Além da atitude política, Nneka herdou da cantora norte-americana o perfil camaleônico; como Nina Simone, é quase impossível encaixar a nigeriana e um estilo

HIP HOP
O hip hop norte-americano é a referência mais marcante no som da cantora. Destacam-se a mistura de jazz, rap, r&b e reggae que marca o som do The Fugees -segundo Nneka, a primeira banda de rap que ouviu- e o jazz rap da extinta dupla Black Star, formada pelos MCs Mos Def e Talib Kweli.

LAURYN HILL
Ainda que recuse a comparação, Nneka tem tudo para ser a nova Lauryn Hill. Como ela, tem personalidade, atitude e tanto suas letras, quanto a sonoridade de suas músicas, passam pelas mesmas influências da diva norte-americana

TRIP HOP
A mistura de downtempo, jazz, funk, soul, rap e breakbeats criada por bandas britânicas como Massive Attack e Portishead também perpassa o som de Nneka -ainda que ela não reconheça essa relação


Crítica

Com várias referências, CD impressiona

DO GUIA DA FOLHA

Nneka é a síntese dos estilos musicais espalhados pelo mundo pela diáspora africana, e o melhor exemplo de como africanos e afro-descendentes têm muito em comum. O pensamento político delineado por seu conterrâneo Fela Kuti é grande influência para suas letras, que, no entanto, encontram no formato do rap norte-americano a melhor forma de expressão.
Foi ouvindo artistas como Fugees, Mos Def e Talib Kweli que Nneka conheceu o hip hop dos EUA, e a mistura de rap, r&b, soul e jazz feita por eles é marcante na sonoridade da cantora nigeriana.
Essa referência se destaca, principalmente, em canções como "Death" ou "Come with Me", cuja letra discorre sobre as agruras do povo que vive em sua cidade, Warri, região petrolífera que é alvo da exploração de grandes companhias.
Mas essa relação aparece como uma, entre muitas, e é preciso ouvir Nneka como algo novo e original. Impressiona a maneira como a nigeriana passa do soul ao reggae com igual desenvoltura, às vezes numa mesma música. Ou como, de repente, se torna uma legítima intérprete de música pop africana, evocando ritmos locais como em "From Africa 2 U".
É por isso que "No Longer at Ease" transcende gêneros: é rap, soul, funk, reggae, afrobeat (basicamente, black music).
Merecem ser destacadas a parceria com o DJ alemão Farhot e o produtor francês Jean Lamoot, que duplicam a voz da cantora com efeitos contundentes, como no hit "Heartbeat", na qual as palavras soam com a batida de um coração.
Nneka nega o rótulo trip hop -rebatiza o estilo como afro hip hop- denominação, que, aliás, faz todo o sentido. (AFS)

NO LONGER AT EASE
Artista: Nneka
Gravadora: Four Music
Quanto: R$ 40 (em média; site www.amazon.de)
Onde ouvir: www.myspace.com/nnekaworld
Avaliação: ótimo

Fonte: Folha de São Paulo, segunda-feira, 11 de agosto de 2008