20 de dez de 2011

Cesária Évora (1941-2011)


Cesária Évora Morreu a senhora música do mundo

PUBLICO
18.12.2011
VÍTOR BELANCIANO

Todos a queriam para si. Os portugueses diziam que estava para Cabo Verde como Amália para Portugal. Os franceses que estava para Cabo Verde como Edith Piaf para França. Para os naturais de Cabo Verde era a própria ilha. Era a sua voz. Ela era do Mindelo, onde nasceu e onde regressava sempre, mas desde a alvorada dos anos 90 transformou-se numa voz universal, cantando Cabo Verde para o mundo. Essa voz de todos, maior do que a vida, que apenas não conseguiu espantar a morte, calou-se ontem, aos 70 anos, no Hospital Baptista de Sousa, em São Vicente, por "insuficiência cardio-respiratória e tensão cardíaca elevada."

Não foi uma surpresa, se é que se pode dizer isso da morte. A 24 de Setembro do ano passado a cantora tinha dito que iria terminar a carreira a conselho médico e nesse mesmo dia foi internada depois de mais um acidente vascular cerebral. Ontem, aos 70 anos, completados em 27 de Agosto último, aconteceu mesmo, deixando uma carreira feita de inúmeras digressões e actuações na TV, 24 álbuns (Miss Perfumado, Mar Azul, Café Atlântico ou Nha Sentimento), um DVD e muitas colaborações registadas em disco. Era sem dúvida a cantora de maior reconhecimento internacional da história da música popular cabo-verdiana.

Isso mesmo foi aludido, ontem, pelo Presidente da República Cavaco Silva, que considerou a cantora um "símbolo eloquente da música e da alma de Cabo Verde." Na mesma linha, o empresário da cantora, José da Silva, em comunicado, lembrou o "legado artístico e humano" da artista que tinha "um encanto subtil na voz." Já o secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Domingos Simões Pereira, da Guiné-Bissau, lembrou que "muita gente passou a conhecer os países africanos de língua portuguesa pela Cesária. Quantas vezes todos reclamaram ser do país da Cesária?"

Billie Holiday da morna

Desde que se tornou numa figura de êxito internacional, a partir de 1992, que as preocupações com a sua saúde eram sempre referenciadas (problemas cardíacos e respiratórios, ou colesterol). Em 1996, neste jornal, Luís Maio, enviado especial a São Vicente, dizia que havia optado por deixar de lado a garrafa de whisky e o cigarro que a haviam ajudado, no início da carreira, a moldar uma imagem de "Billie Holiday da morna". Nas entrevistas, sempre que lhe falavam da sua saúde, brincava, dizendo que há muitos anos que não bebia ou fumava. Pode ser verdade, mas não chegou para a afastar dos caminhos da morte.

A sua voz, sim, espantava. Deixava boquiabertos os que foram tomando contacto com ela ao longo dos anos, ao mesmo tempo que parecia atenuar ou, no limite, afastar, os males da alma. Quem a viu ao vivo sabe-o: face sofrida mas digna, corpo balançando-se vagarosamente apoiado nos pés sempre descalços e aquela voz límpida e calorosa. Os franceses, que a adoptaram em primeiro lugar, chamaram-lhe "a diva dos pés descalços" e o epíteto ficou.

E depois existia ainda a música, mornas essencialmente, mas também coladeras, parecendo declives de tristeza, um tipo de ondulação doce, envolvendo canções sobre a vida, o desespero, a esperança e a transcendência, o indizível, aquilo que apenas a música parece conseguir traduzir tantas vezes, em canções como sôdade, Sangue de beirona, Fada, Carnaval de São Vicente, Luiza, Flor di nhã esperança, Miss perfumado, Mar azul, Vida tem um so vida ou Dor di amor.

A música sempre esteve nela. O pai, Justiniano da Cruz, tocava cavaquinho, violão e violino, o irmão Lela, saxofone, e entre os amigos contava-se o mais emblemático compositor cabo-verdiano, B. Leza, que viu morrer cedo, mas cujas composições cantou até ao fim da vida. Desde cedo que Cize, como era tratada pelos amigos, se lembrava de cantar, ao ar livre, nas praças da cidade do Mindelo "para afastar coisas tristes." Aos 16 fazia-o nos bares e hotéis da cidade, começando a angariar alguns admiradores que a tratavam como a "rainha da morna." Com a independência de Cabo Verde, em 1975, deixa de cantar durante dez anos, um período muito negro, que a levaram ao alcoolismo.

Em 1985, a convite do cantor Bana, proprietário de um restaurante e de uma discoteca, acaba por ser deslocar a Lisboa, gravando um disco que passou despercebido. Seguiu-se Paris, impulsionada pelo empresário francês José da Silva, que a acompanhou sempre, e foi aí que acabou por ver reconhecido o seu trabalho numa fase inicial. Em 1988 grava La diva aux pied nus, sendo aclamada em 1992 com o álbum Miss Perfumado.

Cantar não tem idade

Aos 47 anos, finalmente, transformava-se numa primeira figura do circuito das "músicas do mundo", actuando nos mais relevantes palcos do globo, concretizando desde então parcerias com outros cantores (de Caetano Veloso a Marisa Monte, ou de Compay Segundo a Salif Keita) e fixando-se, na maior parte do tempo, em Paris. Em Portugal, o grande público, só começou a dar-lhe a devida atenção na segunda metade dos anos 90 e em 1999 recebe a Grã-Cruz da ordem do Infante D. Henrique. Depois do seu sucesso, vagas de músicos de Cabo Verde (Lura, Nancy Vieira, Baú, Tcheka) repetiram os seus passos, alternando entre Paris, Lisboa e a ilha, dessa forma exportando a sua música.

Em 2004 acabou por receber um Grammy para melhor álbum de world music contemporânea pelo disco Voz d" Amor, continuando insistentemente com as digressões por todo o mundo, apesar dos vários problemas de saúde. Não gostava muito de dar entrevistas. Dizia que eram repetitivas. Era lacónica. Falava como cantava, em crioulo. "Ninguém entende crioulo", dizia das audiências que a ouviam, "mas não importa, a música diz tudo, entendem a música." Quando a interrogavam sobre a idade respondia que Sinatra havia cantado até aos 80 e o cubano Compay Segundo até aos 90. "Cantar não tem idade". A sua imagem de marca passava pelo cigarro na mão, enquanto bebia grogue. Os que com ela privaram reconheciam-lhe a capacidade de brincar e uma grande autenticidade na forma como vivia.

Nos últimos anos não lhe faltaram críticos também, que argumentavam que se estava a repetir sem necessidade. Em França, é que o aplauso não abrandou. Em 2009 o Presidente francês Nicolas Sarkozy entrega-lhe a medalha da Legião de Honra, depois de uma intervenção cirúrgica que a levou a temer pela vida. Apesar do seu estado debilitado, afirmou numa entrevista que preparava um novo disco para ser lançado no próximo ano. Já não acontecerá, mas da senhora música do mundo ficarão muitas outras canções para superar a sôdade.


Cize, no mar azul dos céus
NUNO PACHECO

Há um exercício inútil, a que alguns já se entregaram, sem êxito: encontrar "substituto" para Cesária Évora. Ela nunca se incomodou com isso, talvez porque soubesse que era tarefa impossível. O mistério que sempre envolveu a sua voz de um timbre inigualável, a calma profunda e melancólica que emanava das suas canções, fossem elas mornas ou coladeras (género, mais ritmado, a que dedicou o seu último disco, Nha Sentimento), não tem nem terá paralelo noutras cantoras cabo-verdianas, mesmo nas melhores. Tal como Amália não teve nem terá paralelo noutras fadistas, e tantas há e houve, algumas geniais, também Cesária foi estrela de exemplar único no belo firmamento da música cabo-verdiana e também no da música universal.

Musicalmente cresceu tarde, de Paris para o mundo, porque o mundo não lhe abriu outras portas antes nem noutros lugares. Teve a ajuda de José da Silva, que percebeu o que nela havia de melhor, mas o resto só podia ter sido dela: a voz, a alma, o gesto, a cabo-verdianidade. Ouvi-la, fosse em que palcos cantasse (e cantou em tantos, de modo incansável), era ouvir e ver Cabo Verde. Dificilmente haverá disco tão belo quanto Mar Azul e dificilmente cada nova audição das suas escassas oito faixas deixará cada ouvinte imune à emoção. É certo que, em matéria de discos, a sua carreira teve altos (alguns altíssimos) e baixos, mas raramente cedeu à vulgaridade de se deixar desfigurar por modas a que era alheia, mesmo nos duetos com celebridades (de onde aliás se saiu bem), usando-os como tributo à sua arte.

Sempre cantou (e falou) em crioulo cabo-verdiano, deixando a tarefa de entender o que dizia a tradutores ou interlocutores mais sagazes. Sempre se divertiu nas entrevistas, mesmo quando parecia entediada, sempre falou pouco porque preferia cantar muito, sempre tendeu a desarmar quem queria fazer-lhe perguntas difíceis. O tabaco e o álcool foram durante muito tempo seus companheiros nessas conversas, até que, depois do AVC que a obrigou a parar em 2008, a travaram.

No início deste mês de Dezembro era já uma certeza: Cesária Évora não voltaria aos palcos. Recomendavam-lhe repouso, muito repouso. Na sua casa, no Mindelo, Cesária talvez já não esperasse nada. Mas em 2009, na última entrevista que deu ao PÚBLICO, dizia com um largo sorriso, ainda sem largar o cigarro: "Eu já não estou mais doente". Ao acidente vascular cerebral chamava-lhe apenas uma "picada no braço". Nessa altura ainda a esperavam vários palcos: o emblemático Le Grand Rex de Paris, Suíça, Luxemburgo, Israel, Polónia, Lituânia. Mas já tinha em mente parar de vez. "Canto mais um tempo e depois stop!" Para lá disso, apenas um sonho: "Fazer uma casa no campo. E morrer lá". Isso no Mindelo, onde nasceu e acabou por morrer, mas num hospital, aos 70 anos. Cize, era esse o seu "nominho", ficará agora a cantar na nossa memória e no mar azul dos céus.

Reacções

Flávio Hamilton, actor
Para mim a Cesária sempre foi o mundo. Cresci numa família de músicos, e ela sempre foi uma grande referência, a Cesária e a minha avó tinham uma relação de grande amizade. Cresci com a ideia que a Cesária era quase a perfeição ao nível musical. Mas eu adorava ir vê-la quando ela ia cantar a qualquer sítio por causa da sua pessoa, da sua maneira brincalhona. Era isso que eu adorava antes de saber o que a música dela representava. Para mim é uma referência humana, absolutamente forte e inspiradora e que eu não quero nunca esquecer

Lura, cantora
Estou completamente desolada, todos estávamos com muitas esperanças, a Cesária sempre foi uma força da natureza, sempre acreditávamos que ela agora ia ter tempo para descansar e se recuperar. É muito triste para Cabo verde, que perdeu muito, culturalmente e não só. A Cesária foi a mulher que levou Cabo verde ao mundo, ao universo,. Ela é a nossa referência, por causa do amor que dedicou à carreira, à música, à cultura e à história de Cabo Verde, com uma entrega notável. Admiro-a muito, em todos os aspectos.

Tito Paris, músico
Cabo verde fica mais pobre, da mesma forma que ficou mais rica quando ela nasceu, porque nasceu uma estrela que não se apagará, ficará acesa, a brilhar através da sua música. Espero que todos os cabo-verdianos, sobretudo os mais jovens, dêem valor ao que ela nos deu. A Cesária levou-nos de uma parte do mundo para a outra, levou o nome de Cabo verde por todo o mundo e quando ela estava em palco todo o cabo-verdiano estava lá com ela. Ela levou a morna, e o sorriso, e o calor do Mindelo. Todo o mundo da música ficou mais pobre, mas um artista nunca morre.

José Eduardo Agualusa, escritor
O extraordinário sucesso da Cesária mudou a forma como a música cabo-verdiana passou a ser acolhida no mundo e, dessa forma, a própria música cabo-verdiana. Mas mais do que isso, julgo que ela foi muito importante para todo o mundo da música em português, porque abriu caminhos para todas as outras culturas. O que foi extraordinário nela foi ter sido capaz de dar voz a todo esse património. Lembro-me de a ter entrevistado para o PÚBLICO antes do sucesso em França. E ela já era todo aquele património extraordinário de Cabo Verde.

João Branco, director do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo
A primeira vez que chorei em Cabo Verde, há quase 20 anos, foi por ter ouvido a voz de Cesária. Estava sentado num bar, distraído, quando aquele espaço foi invadido por uma voz única, grave, possante. O disco era o Miss Perfumado. [...] Depois do choque inicial, a voz de Cesária ecoa por toda a cidade do Mindelo. Nas ruas, nos cafés, nos bares, nos carros, nas vozes. Um mendigo grita no centro histórico: "Cesária já morrê!" Cabo Verde, é uma Nação que se curva, de pés descalços, perante a sua maior Diva.

16 de jun de 2011

Especial Afrobeat com Letieres


Radio Africa especial com maestro Letieres Leite da Orkestra Rumpilezz conversando sobre o disco: Afrobaby - The Evolution of the Afro-Sound in Nigeria 1970-79 (baixe o disco aqui).

Sábado, dia 18, 19h na Educadora FM 107.5 - vocẽ também pode ouvir o programa via internet no site: www.educadora.ba.gov.br

18 de fev de 2011

Especial Egito e Líbia

Nesse sábado vamos ter um programa especial em homenagem ao Egito e a Líbia.

O programa pode ser ouvido ao vivo via rede no site do irdeb. (19h em Salvador e 20h no sudeste)

Leia aqui mais informações sobre a onda de revoltas no norte da África.

Para entrar no clima veja o clip do músico egípicio Amir Eid gravado na praça Tahrir em pleno
protesto.





11 de fev de 2011

#25jan


Americanos lançam rap sobre a rebelião egípcia no YouTube
PAULA DAIBERT
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM DOHA (QATAR)

"Ouvi eles dizerem que a revolução não será televisionada; a Al Jazeera provou que estavam errados; o Twitter os deixou paralisados." São esses os primeiros versos, em inglês, de "#Jan25", rap criado por um grupo de artistas americanos e canadenses de origem árabe, inspirado nos protestos que ocorrem no Egito há mais de duas semanas.
O título faz referência ao símbolo "hashtag", que caracteriza os tuítes, e à data em que se iniciaram as gigantescas manifestações que pedem a queda do ditador egípcio, Hosni Mubarak.
Produzida pelo palestino-americano Sami Matar, a música é uma parceria entre os rappers Omar Offendum, The Narcicyst, Amir Sulaiman, Ayah e Freeway.
Colocado no ar na última segunda-feira, o videoclipe de "#Jan25" já havia ultrapassado 45 mil visualizações no YouTube desde o seu lançamento até o fechamento desta edição.
Com 5 minutos e 48 segundos de duração, o vídeo é uma compilação de várias cenas de confronto entre os manifestantes e a polícia em lugares como a praça Tahrir, epicentro das manifestações pela derrubada da ditadura.
Os artistas só aparecem em montagem fotográfica no início e no final do vídeo, que também aproveita a narração da rede árabe Al Jazeera.
"A revolução não será televisionada" é citação do título da canção mais conhecida de Gil Scott-Heron, músico e escritor americano considerado precursor do rap, lançada em 1970 como uma crítica à mídia "mainstream".
Segundo Offendum, apesar do uso maciço das redes sociais Twitter e Facebook na organização e disseminação de mensagens de apoio aos protestos, o que está ocorrendo no Egito no momento é uma revolução popular real.
"Essa não é uma revolução do Twitter. Foi preciso que muitas pessoas se unissem e se comunicassem para que ela acontecesse", afirmou o rapper sírio-americano durante entrevista à Folha em Doha, no Qatar.
Entretanto, ele não deixa de mencionar que o bloqueio do Twitter no Egito nos primeiros dias de protestos é um sinal de que "os responsáveis pela atual situação no país se dão conta da ameaça que as redes sociais podem representar para eles".
O artista ressalta ainda a importância da transmissão dos protestos pela televisão, sobretudo a Al Jazeera, baseada em Doha, que, segundo ele, preenche um vazio.

Folha de São Paulo, quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

7 de fev de 2011

Uma invasão de indie rock vindo da África


Jimi Hendrix é mixado com música nativa
Por LARRY ROHTER (The New York Times)

Para onde quer que você olhe, hoje em dia, parece que o mundo do indie rock está explorando sons vindos da África, a origem ancestral de gêneros americanos como o jazz e o blues.
Em termos de geografia, os grupos africanos que estão começando a ser ouvidos nos EUA incluem alguns de países como África do Sul, Serra Leoa, Quênia e Ruanda. Mas o ponto focal do interesse das gravadoras é claramente o Mali.
País da África ocidental subsaariana, sem saída para o mar e com apenas 14,5 milhões de habitantes -menos de um décimo da população da Nigéria-, o Mali ganhou fama de potência musical.
O etnomusicólogo Jon Kertzer, que comanda o selo Next Ambiance da gravadora indie Sub Pop, chegou a escrever um artigo intitulado "Good Golly, Why Mali?".
Uma resposta talvez seja o longo histórico do país como encruzilhada de povos nômades, fato que resultou em um misto incomum de culturas e estilos musicais: bambaras, sonrais, mandingas, árabes e tuaregues, entre outros. Também ajuda o fato de a música malinesa ser baseada numa tradição forte de instrumentos de corda, caso do corá, semelhante a uma harpa, e do ngoni, visto como antepassado do banjo; ambos soam familiares aos ouvidos ocidentais acostumados ao violão.
"É lógico que o ponto de entrada seja um instrumento que você consegue reconhecer", disse Bettina Richards, fundadora da Thrill Jockey, cujos artistas africanos incluem o quarteto elétrico baseado em rock Extra Golden, composto de dois americanos e dois quenianos.
Selos como o Nonesuch começaram a lançar compilações de música africana já nos anos 1960. Mas os executivos de selos indie, blogueiros e fãs da música africana, muitas vezes, consideram que o pequeno boom atual começou em 1997, quando o selo francês Buda Musique começou a relançar a chamada série Ethiopique, que hoje consiste em mais de 20 CDs de música da Etiópia e Eritreia.
"A Ethiopique foi importantíssima, influente; pode-se dizer que tenha sido transformadora", disse Jonathan Poneman, um dos fundadores da Sub Pop.
No início da década passada, a banda malinesa Tinariwen surgiu literalmente do deserto, chamando a atenção quando começou suas apresentações em festivais como o Womad, de Peter Gabriel, no Reino Unido.
Membros dos povos nômades do Saara, os integrantes da banda tinham percorrido o Mali, a Argélia e a Líbia, absorvendo não apenas a influência da música árabe e berbere, mas também Jimi Hendrix e Led Zeppelin, criando um estilo potente, movido por guitarras e divulgado como sendo "blues do deserto".
A curiosidade sobre a música africana pode ser suscitada também pela popularidade recente de bandas americanas como Dirty Projectors e, especialmente, Vampire Weekend, ambas as quais começaram como projetos de alunos de grandes universidades americanas que aderiram à música africana, incorporando alguns de seus ritmos e vozes. No Reino Unido, um processo semelhante começou antes: Damon Albarn lançou o álbum Mali Music há quase dez anos.
Assim como Bob Marley virou símbolo da autenticidade terceiro-mundista quando apareceu no cenário pop, nos anos 1970, artistas da onda africana parecem estar ganhando credibilidade e legitimidade graças a experiências de vida duras.
Tanto a Tinariwen quanto a Sierra Leone Refugee All-Stars emergiram do exílio e de campos de refugiados; a The Good Ones é formada por sobreviventes do genocídio em Ruanda, e os membros da Blk Jks (foto) vêm do bairro pobre de Soweto, localizado nos arredores de Johannesburgo.
No passado, artistas africanos se queixaram de sua música ser apresentada como "exótica" e de terem seus direitos criativos usurpados por gravadoras, estúdios e empresas de administração europeias e americanas. Mas os selos indie parecem ter consciência dessas preocupações. Além disso, a geração atual é feita de artistas mais conectados que seus predecessores, mais aptos para defender seus direitos.
Os chefes dos selos indie que fizeram suas apostas modestas na música africana também apontam para a globalização e a internet, que realmente transformaram algo que, no passado, era distante, em algo que está a apenas um clique de distância.
"Existem ouvintes de todos os tipos no mundo, e muitos deles têm acesso a todos os tipos de música", disse Poneman.


Folha de São Paulo, segunda-feira, 07 de fevereiro de 2011