31 de mai de 2010

Damian Marley e Nas

Dueto incomum homenageia a África
Parceria une nova-iorquino e jamaicano
Por ROB KENNER

A África anda no centro das atenções. A Copa do Mundo da África do Sul começa na semana que vem. Os EUA têm um presidente com pai queniano. E até na Broadway o musical afrocêntrico "Fela!" coleciona indicações ao prêmio Tony.
Um recente show em Manhattan e o lançamento de um álbum inovador são novas evidências da atual proeminência da África.
Com tranças tão longas que quase tocam suas botas, Damian Marley chegou em março ao Fillmore, em Nova York, com uma missão furtiva. Esse astro jamaicano do dancehall, também conhecido como Jr Gong, e o rapper nova-iorquino Nasir Jones, o Nas, planejavam surpreender a plateia de um show do artista de hip-hop K'Naan com uma música de "Distant Relatives", novo álbum da dupla.
Eles entraram por uma porta lateral, pararam no meio da multidão do camarim e assistiram à apresentação do somali K'Naan. Mas logo K'Naan apresentou Nas, ovacionado com "New York State of Mind" (1992). Em seguida, Marley cantou "I Come Prepared", um áspero dueto do álbum mais recente de K'Naan, "Troubadour". E aí chegou a hora dos Distant Relatives ("parentes distantes") juntarem forças. Para delírio da plateia, a dupla começou com "As We Enter", duelo em cima de uma estranha batida de break executada pelo jazzista etíope Mulatu Astatke.
"O cara vai falar um patois [inglês falado no Caribe]", disse Nas, "e eu posso falar como astro do rap". Ele concluiu sua saraivada de versos com uma saudação em suaíli: "Habari gani". Ao que Marley respondeu "Nzuri sana", como se estivessem conversando nas ruas de Nairóbi.
Essas inesperadas misturas culturais estão no coração de "Distant Relatives", novo álbum em que eles exploram a ancestralidade comum que conecta esses dois artistas, oriundos de países e gêneros musicais diferentes, e toda a raça humana.
"Realisticamente, a África é o lugar mais rico do mundo, mas as pessoas não se beneficiam da sua riqueza", disse Marley, filho mais novo de Bob Marley, em entrevista.
"Quando a África for desenvolvida, será a maravilha do mundo, porque vai poder fazer uso de todos os erros das outras nações. Mas isso não vai cair do céu. Então temos de investir trabalho nisso."
"Distant Relatives" não foi concebido como uma colaboração com músicos africanos, como "Graceland", de Paul Simon. O álbum foca a ideia de África, tirando força de um continente que influencia a cultura do hip-hop e do reggae desde o final da década de 1970.
"Este álbum simplesmente não teria funcionado há dez anos", disse Mark Anthony Neal, professor de cultura negra da Universidade Duke, na Carolina do Norte. "Mas, como a África é o que há de mais 'cool' a esta altura, funciona ao contrário. A esperança é que Nas e Damian possam levar a conversa além de simplesmente ser a coisa 'cool' para usar num refrão."
À primeira vista, Marley, 31, e Nas, 36, formam de certa maneira um par estranho. Um é rastafári declarado; o outro é uma espécie de hedonista do hip-hop.
Nas já havia sido parceiro de Marley em um verso de "Road to Zion", tocante single do álbum "Welcome to Jamrock" (2005), que rendeu um Grammy a Marley.
Eles se reuniram quatro anos depois para um EP, mas o projeto, uma vez começado, ficou mais ambicioso. A canção "Friends" está construída em torno de um trecho de "Undenge Uami", do cantor angolano David Zé; "Patience" insere "Sabali", aflitiva canção de Amadou & Mariam, dupla do Mali formada por marido e mulher. Assim como com o jazz etíope de Astatke, "Patience" é uma colaboração intercultural que salienta o entrelaçamento entre a África e o Ocidente.
Nas quer um dia fazer uma turnê pela Terra-Mãe. "Nós vamos para a África, filho", disse. "Temos muito que conversar com os nossos camaradas africanos por lá. Isso não é um jogo."

The New York Times
Folha de São Paulo, segunda-feira, 31 de maio de 2010

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